O governo central da Holanda está desenvolvendo uma alternativa própria de código aberto ao Windows e ao Microsoft 365, batizada de DAWO — sigla em holandês para Ambiente de Trabalho Digital Autônomo do Governo. O projeto é baseado na distribuição Linux NixOS e recebeu mandato oficial em julho, mas ainda está em estágio de testes de pequena escala.
Sumário
Soberania digital, não fim de suporte, é o gatilho
Diferente do que se poderia supor, o projeto não nasceu por causa do fim do suporte ao Windows 10. O fator decisivo foi geopolítico: em 2025, os Estados Unidos impuseram sanções ao Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, e a Microsoft cortou serviços — incluindo e-mail — ao procurador-chefe do tribunal. O episódio expôs, para o governo holandês, o risco de depender de infraestrutura digital controlada por uma empresa estrangeira sujeita a decisões políticas de outro país.
A partir daí, a Comissão Interdepartamental para a Operação do Governo emitiu uma diretriz por um ambiente digital padronizado e soberano. O desenvolvimento do DAWO ficou a cargo de uma equipe ligada ao Ministério do Interior e Relações do Reino, com execução pelos três grandes provedores de TI do governo central: SSC-ICT, DICTU e DUO-ICT.
Por que NixOS
A escolha do NixOS não é aleatória: a distribuição tem origem holandesa, criada a partir do gerenciador de pacotes Nix, desenvolvido na Universidade de Utrecht. Um dos atrativos técnicos apontados pela equipe é a reprodutibilidade de configuração — estimativas indicam que entre 80% e 90% de uma configuração NixOS pode ser reaproveitada entre diferentes implantações, o que facilita padronizar máquinas em larga escala sem depender de uma empresa proprietária controlando o sistema.
O DAWO não se limita ao sistema operacional: o pacote inclui também suíte de escritório, aplicativos de colaboração, armazenamento em nuvem, backups e ferramentas de gestão de dispositivos — buscando cobrir, ponto a ponto, as funções hoje preenchidas pelo ecossistema Microsoft 365.
Escala atual e cronograma
Por ora, o projeto está longe de uma migração ampla. Oito municípios participam de uma avaliação piloto coordenada pela Associação de Municípios Holandeses, rodando o ambiente em notebooks antigos ou reaproveitados. Não há cronograma formal de substituição definitivo — a expectativa da própria equipe de desenvolvimento é ter uma primeira versão estável do DAWO em algum momento de 2027, sem mês específico definido.
A Holanda não está isolada nesse movimento. A Dinamarca já vem trocando Windows e Microsoft 365 por Linux e LibreOffice em parte de sua administração pública, a França avança com o projeto Sécurix/Bureautix baseado em NixOS em cerca de 250 máquinas de sua agência de tecnologia digital, e a Suíça testa uma alternativa ao Microsoft 365 com cerca de três mil funcionários. O desafio comum a todos esses projetos é o mesmo: garantir que aplicações internas específicas do governo continuem funcionando fora do ecossistema Windows, o que costuma exigir adaptação de sistemas legados e treinamento de servidores públicos.










